Sobre valores e ressignificação

Sobre valores e ressignificação

Quando eu estava na faculdade tinha um professor que eu gostava muito: Gino Del Ponte. Tinha um jeito bonachão, mas não displicente, refinado, mas espontâneo. Gostava de falar de viagens, filosofia e culinária. Nossa turma se identificou muito com ele.

Resolveu fazer um jantar para os alunos em sua casa. Como era um loft – logo, não cabiam os quarenta e cinco – dividiu a turma em três grupos. Compramos os vinhos e ele entrou com a comida. Obviamente, era um evento subsidiado. Fez vários tipos de macarrão, molho de coelho, molho ao funghi. E, como não podia deixar de ser, além do que levamos, abriu várias outras garrafas.

Depois de beber muito resolveu falar o que achava de cada um de nós. Como ele era um tanto atirado com as meninas – e já estava tão embriagado quanto nós – teceu vários comentários um tanto inapropriados, o que gerou muitos risos. No meio do caminho, virou para mim e disse algo que me marcou muito: o Thiago tem o espírito que eu gostaria que meu filho tivesse, pois ele morre pelo que acredita. Aquelas palavras sempre estiveram frescas em minha memória. Fiz questão, pois me senti absurdamente honrado pelo reconhecimento. Admirei-o ainda mais por ter percebido muito nitidamente como eu era e por ter me traduzido para palavras de uma forma que eu mesmo não seria capaz naquele momento. Era exatamente assim que eu me sentia, um herói lutando por sua verdade, disposto a morrer por ela se necessário. Hoje relembrando tudo isso, pensei: ainda morreria pelo que acredito?

Meu grande equívoco nessa época não foi acreditar que morreria pelo que acredito, eu realmente estava disposto. O erro foi acreditar que seria rápido. O romantismo do período sempre me remetia à alguma situação crítica, algo como morrer em batalha, coberto de sangue e flechas, defendendo um castelo dos inimigos ou qualquer cena épica do gênero. Descobri ao longo dos anos que não é assim que funciona. Você vai morrendo aos poucos, em cada decepção ao longo do caminho. O espaço é bastante amplo. Pode começar com as pequenas derrotas do dia a dia, como as palavras de desencorajamento que ouvimos uma vez atrás da outra. Neste ponto em específico o ser humano é bastante democrático. Não importa a cor, família, crença ou status social, sempre haverá alguém para te dizer a coisa errada do jeito errado. Que você não serve. Que você não sabe. Que nada disso importa. Para ninguém. Só você, ingênuo e iludido, continua insistindo. Inconvenientemente, às vezes, é verdade.

Além das pequenas derrotas, existem obviamente as de grandes proporções: humilhação pública, demissão, separação, falência, traição, abandono. As grandes expectativas seguidas de decepções colossais que parecem recolher os cacos de um sacrifício partido, depositando de maneira indiferente em nossas mãos os fragmentos para que possamos ver e sentir cada borda irregular e cortante. No meio dos estilhaços sempre tem ao menos um bom pedaço de nossas crenças mais fundamentais.

Aos poucos aquela ideologia inicial vai perdendo sua força e seus contornos. Quando olhamos que tudo o que sobrou foi uma massa disforme, já não há mais como sentir orgulho. Admiramos o que é sólido, vigoroso e belo. Um aglomerado amorfo não instila honra. Não brilha aos olhos, não alimenta o futuro. Assim você passa a se enxergar. Amorfo, opaco, desonrado e sem futuro. Com uma boa dose de mal humor e auto piedade, você enverniza a peça. Acha que esconde o artefato em algum lugar distante da consciência, mas ele sempre salta à vista de todos cada vez que você abre a boca. Em cada opinião ácida corrói um pedaço da peça alheia.

Alguns, entretanto, conseguem enxergar o potencial dessa matéria. Se ela não parece mais nada, sendo maleável e amorfa pode ser moldada novamente. Com tratamento adequado, pode adquirir um novo uso. Para um novo uso, deve ter um novo significado. E com significado, ela pode ser suporte à construção de futuro.

Se eu ainda morro pelo que acredito? Não sei. Mas vivo pensando nisso.

 

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